amor sem medo

Compilação dos meus poemas, alguns publicados no Eco do Funchal e na III Antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea (Edições Orpheu). Não estão por ordem cronológica. Estavam divididos em vários livros, por temas que compreendiam amor, filosofia de vida e análise do mundo. Salvo os que fiz para serem musicados, sempre escrevi para mim. Muitos dos que os inspiraram, nem o souberam. Daí o seu intimismo. Hoje, acho que descrevem emoções universais. Direitos de autor reservados.

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múltiplas facetas

28 maio 2008

A história


- Conta-me uma história, disse eu, jogando-me para cima da cama.

Ele olhou-me, com uma certa surpresa no rosto, assim como que a ver se eu estava a falar a sério.

- Que história?

- Uma qualquer! Inventa!

Aninhei-me nos cobertores, encostei-me na almofada e fiquei ali a olhá-lo fixamente, à espera, rindo-me interiormente com o evidente esforço de concentração daquela busca por um conto.

Ele olhou-me, passados alguns minutos, a ver se eu desistia da ideia.

Soergui o sobrolho e ripostei com ar risonho, quase atrevido: Então? Não sabes nenhuma história? Todos os dias te conto uma!

E era verdade! Fora essa evidência que me levara a fazer o pedido. Todas as noites, na minha habitual ronda para retirar a chave para dentro, deixava-me embalar pela noite e quando chegava ao quarto descrevia-lhe em pormenor o luar amarelado da lua cheia, o rasto que deixava no mar, ou aquele outro luar prateado, que me deixava jogos de sombra e luz no quintal e que tanto me fascinava. O brilho das estrelas, o negrume do céu em lua nova, sei lá, havia sempre tanto que contar.

E ele, já deitado, à minha espera, ficava ali caladinho, ouvindo as minhas descrições. Naquele dia, ao entrar no quarto, pensei que, de facto, vinha para a cama sempre com uma história.
Apeteceu-me ouvir uma, mas o meu pedido ficou sem resposta. Ao fim de algum tempo, desistiu. Puxou-me para si, aninhou-me nos seus braços como se eu fosse pequenina - acho que pensou que nesse dia me estava a sentir criança - e murmurou: Já te conto uma história!
Dei uma gargalhada, aninhei-me no seu peito e ali adormecemos felizes. Mesmo sem história.

Hoje, olhando para trás, lembro a seriedade com que ele me ouvia e questiono-me sobre o que estaria ele pensando daquelas minhas descrições, do meu entusiasmo, daquela súbita alegria que me fazia falar sem esperar resposta.

Quem sabe? Talvez hoje lhe apetecesse ouvir um daqueles contos de embalar.

As noites continuam a encantar-me, o luar enche-me a alma de sorrisos e sinto que continua a haver lá fora muito para ser contado. Algo mudou, contudo. Ir para a cama deixou de fazer sentido.

Não há ninguém para ouvir as minhas histórias!


3 Comments:

Blogger Espaço do João said...

Quando se adormece ao conto duma história faz-me lembrar as crianças. Quer os meus filhos, quer o meu neto adoravam que lhe contassemos uma história, mas só adormeciam depois dela contada. A vida tem destas coisa.Muitas das vezes não sabemos aptoveitar.

01/06/08, 01:24  
Blogger miradouro das cruzes said...

Cara amiga,
Não posso deixar de a felicitar por este seu regresso!
Vivemos de contos, (alguns do vigário!)do ...era uma vez... e ansiamos histórias felizes, que nos animem a alma e nos amem. E quem não gosta de ser amado? E quem não gosta de se sentir feliz? E a vida é tão curta, tão volátil que precisamos do ânimo de quem amamos, mesmo que virtual dá-nos esperança de felicidade plena. E dos sonhos nascerá algo novo profundo e belo! Pena tenho, que quem nunca sonhou! E parafraseando Vinicius, tenho muito mais pena de quem nunca amou...
Carlos

02/06/08, 17:11  
Blogger anete joaquim said...

Que palavras tão lindas, Carlos. Obrigada.

joão
Um dia conto-te uma história!!! LOL Também mereces! bjs

05/06/08, 09:59  

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