amor sem medo

Compilação dos meus poemas, alguns publicados no Eco do Funchal e na III Antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea (Edições Orpheu). Não estão por ordem cronológica. Estavam divididos em vários livros, por temas que compreendiam amor, filosofia de vida e análise do mundo. Salvo os que fiz para serem musicados, sempre escrevi para mim. Muitos dos que os inspiraram, nem o souberam. Daí o seu intimismo. Hoje, acho que descrevem emoções universais. Direitos de autor reservados.

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múltiplas facetas

05 novembro 2007

urbi et orbi

A vida é assim como que um copo de água que se vai enchendo gota-a-gota, dia-a-dia, sem que cada um deles pareça relevante. Apenas mais uma gota de um propósito que se desenha na mente: o do copo cheio. Nesse lento cumprimento da meta que nos traçamos, nem vamos dando relevância de maior às tristezas que alguns desses dias comportam. Agarramo-nos à existência feliz de outros dias, que nos vão alegrando a vida, na esperança de que outros idênticos nos caiam em sorte. Por vezes esquecemo-nos de nós, do que queremos mesmo e vamo-nos sustentando com a alegria que conseguimos espalhar nos outros, para nos sentirmos minimamente realizados nesse longo e distante projecto de ser feliz. Até que um dia notamos que o copo custa a encher, ou, pior que isso, que se foi enchendo de nadas. Nadas que podem ter sido tudo para os que nos rodeiam, mas que não foram o suficiente para nos encher a alma. É esse o momento que tenho vindo a atravessar de há tempos a esta parte e que me tem afastado do blogue. Precisava concisar esses pensamentos. Lê-los no silêncio de mim mesma. Tentar perceber o que, realmente, se passa comigo. Não sei se foram os 51 anos, este meio século que completei, que me fizeram olhar os olhos da minha alma, de frente, olho-no-olho e questionar-me sobre quem sou e o que tenho. Que felicidade me trouxe o empenho que tive em fazer os outros felizes. A resposta atingiu-me como uma bofetada: estou farta de fazer os outros felizes. Farta de me esquecer de mim. Farta de me consolar em ser feliz através da felicidade que vou dando. Compreendi que estive quase sempre e exclusivamente só. Apenas acompanhada. Pelos filhos, pelos maridos. Chegada a esta conclusão tinha de tirar as devidas ilacções. A idade pesa e tinha a perfeita noção de que a minha decisão iria colocar-me, pela primeira vez na vida, frente-a-frente comigo mesma. Melhor dizendo: só. Literalmente falando, pois os filhos, presença constante durante tantos e tantos anos, seguiram a sua vida e as suas presenças pouco ou nada se fazem agora sentir. Foi mais forte do que eu. Senti que aquele copo cheio me pesava nos ombros e que dali pouca ou nenhuma saciedade me viria. Agarrei o copo com firmeza, com alguma dor à mistura, confesso, e recusei-me a bebê-lo. Acabou-se a esperança da partilha. O sonho de uma felicidade convivida. Agora tenho um copo vazio para encher, mas, desta vez, quero que cada gota seja deitada para matar esta sede. É tempo de pensar em mim. Quem sabe? Talvez um dia, frente ao copo cheio, quiçá apenas de solidão, chegue à conclusão de que a felicidade que procuramos só existe naquela que conseguimos espalhar à nossa volta. Não sei! Só sei que, hoje, isso não me chega. À cidade e ao mundo proclamo: estou farta de me dar em troca de tão pouco! Este é o Meu Tempo! Só meu! Meu, mesmo que só!

18 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Olá, Anete!
Sou brasileira e aspirante a poetisa desde a adolescência, como muitos outros, é certo.
Tenho vindo aqui algumas vezes para apreciar teu belo trabalho.
Poderias entrar em contato comigo por e-mail? Se for possível, meu e-mail é ad_scosta@yahoo.com

Um abraço,
Adriana Costa

06/11/07, 19:29  
Blogger Espaço do João said...

Urbi Et Orbi
Sonhos que o vento leva
na esperança da vida.
Sei que não está esquecida
e que ela nunca se perca.

Aqui e em todo o lado
há sinais de esperança.
Quem sabe se por vingança
caímos no fundo do lago.

Muitas vezes sempre disse
que a maior das saudades.
Quando a presença não existe
talvez fiquemos descansados.

Encher um copo gota a gota
há muito para esperar.
Se a palavra não se esgota
Então caminhemos mais devagar.

Meio século de vida
nem todos teem essa sorte.
Mas, para si minha querida
haverá dias melhores antes da morte.

12/11/07, 20:39  
Blogger Caminhantes! said...

OLÁ ANETE!!
VIEMOS FAZER UMA VISITA À VOCÊ,E CONFESSAMOS QUE MUITO NOS SURPREENDEU SUAS PALAVRAS...UM TALENTO E TANTO.PARABÉNS!
UM ÓTIMO TRABALHO O SEU AQUÍ EM SEU BLOG!
APROVEITANDO A OCASIÃO,QUEREMOS QUE VOCÊ TAMBÉM VENHA NOS VISITAR,PARA CONHECER NOSSO ESPAÇO...SERÁ UMA GRANDE HONRÁ PARA NÓS!
QUE "DEUS" CONTINUE A ILUMINAR SEU CAMINHO!
ABRAÇOS APERTADOS.
ATENCIOSAMENTE,ANJOS DA LUZ.

17/11/07, 16:29  
Blogger Maria said...

Já não sei como vim aqui parar. Pelo blog de algum amigo ou amiga comum, creio, o que interessa é que cheguei aqui. Li várias coisas tuas mas este teu último texto tocou uma corda em particular.
Hei-de voltar.
Um abraço.

20/11/07, 01:34  
Blogger Casa do Povo São Roque do Faial said...

Para os visitantes deste espaço desejamos um Santo e Feliz Natal.

Os Blogs podem servir para variadíssimas coisas. O da Casa do Povo de São Roque do Faial, http://cp-saoroquedofaial.blogspot.com, serve para divulgar as suas actividades. Quem tiver curiosidade de nos visitar será bem vindo. Se por acaso alguém colocar um lik noutro blog com o nosso endereço, desde já agradecemos, pois assim a divulgação das nossas iniciativas será maior...

23/12/07, 23:58  
Blogger São said...

Viva!

Tenho 58 anos e aprendi a duras penas que felicidade não existe!

Mas que existem momentos felizes e inesquecíveis, existem!!

Também tenho como máxima: "Antes só do que mal acompanhada".

Abraço fraterno.

19/01/08, 00:26  
Blogger anete joaquim said...

Desculpem, mas há muito tempo que não venho aqui. A poesia ficou em segundo lugar, neste momento. Um dia destes recomeço a colocar poemas novos.
beijos e obrigada pelas visitas.
Neste blog não costumo comentar. Já expliquei porquê, num dos posts.
Hoje abro uma excepção, visto a coisa andar meio parada.

19/01/08, 13:05  
Blogger Vieille Canaille said...

Poema de amor sobre um tema de Whitman

Entrarei silencioso no quarto de dormir e me deitarei
entre noivo e noiva,
esses corpos caídos do céu esperando nus em sobressalto,
braços pousados sobre os olhos na escuridão,
afundarei minha cara em seus ombros e seios, respirarei tua pele
e acariciarei e beijarei a nuca e a boca e mostrarei seu traseiro,
pernas erguidas e dobradas para receber,
caralho atormentado na escuridão, atacando,
levantado do buraco até a cabeça pulsante,
corpos entrelaçados nus e trêmulos,
coxas quentes e nádegas enfiadas uma na outra
e os olhos, olhos cintilando encantadores,
abrindo-se em olhares e abandono,
e os gemidos do movimento, vozes, mãos no ar, mãos entre as coxas,
mãos, na umidade de macios quadris, palpitante contração de ventres
até que o branco venha jorrar no turbilhão dos lençóis
e a noiva grite pedindo perdão
e o noivo se cubra de lágrimas de paixão e compaixão
e eu me erga da cama saciado de últimos gestos íntimos
e beijos de adeus –
tudo isso antes que a mente desperte,
atrás das cortinas e portas fechadas da casa escurecida
cujos habitantes perambulam insatisfeitos pela noite,
fantasmas desnudos buscando-se no silêncio.


Allen Ginsberg

27/01/08, 22:23  
Blogger Rui Caetano said...

A vida é muito breve e, por isso, torna-se fundamental olharmos para nós de um modo atento. Há que buscar a felicidade em cada esquina do nosso olhar.

13/02/08, 16:13  
Anonymous Anónimo said...

Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

05/04/08, 07:36  
Anonymous Anónimo said...

Ola Anete, meu nome e Ana Paula marques e mesu pais viveram na Ilha da Madeira (Funchal), hoje moram no Brasil, gostaria de conversar com voce .. pode me mandar um e-mail: ana_marques_br@yahoo.com.br

06/04/08, 01:43  
Blogger Tita said...

Olá Anete,

É óptimo encontar alguém tão louco por flores quanto eu (mais não é possível) e também com aquele travo amargo-doce do nosso drama existêncial com as dúvidas, as angústias, as contradições da corrida diária para alcançar a felicidade.
Por momentos, quando comtemplo a explosão de cor com que decorei a minha estreita varanda de cidade, penso que a vida é perfeita e que não existem desilusões. ~
Penso que a jardinagem nos dá o seu livre trânsito para entrarmos no paraíso.
Tita

27/04/08, 11:53  
Blogger José Leite said...

Um achado!

Este blogue é um oásis no deserto.

Parabéns pela mestria!

15/05/08, 16:23  
Anonymous Anónimo said...

A Felicidade não se procura vive-se!Só a encontraremos se a levarmos connosco. A Felicidade maior é ter é estar viva. Todo o resto está e foi colocado ao nosso dispôr, disponhamos da forma mais sensata a vida que nos foi dada.Vivamos o dia de hoje porque recebemo-lo de presente.xau

24/11/09, 15:31  
Anonymous Anónimo said...

Andava nas imagens do google à procura de buganvílias vermelhas. Cliquei numa imagem e fui ter ao seu jardim, depois vim a este blogue. Este texto tocou-me e acredito que toque muita gente, principalmente mulheres. Já estamos em 2010, espero que hoje já tenha alguém a quem contar de novo as suas histórias, alguém que não faça apenas companhia, mas que... não me vêm mais palavras, mas creio que entende.

"Este é o Meu Tempo! Só meu! Meu, mesmo que só!"- Para mim, este é um grito de coragem e de Amor.

Parabéns pelo belíssimo jardim, alegra os olhos e a alma :)

Maria

07/03/10, 12:40  
Blogger anete joaquim said...

Decididamente, Maria, não fui feita para viver sem me dar. Em todos os sentidos. Estes dois anos têm sido muito tristes, embora tenha aprendido muito sobre mim mesma. Continuo sem ter a quem contar histórias sobre a lua e sempre que vou lá fora espreitar o céu vem-me a recordação desses tempos felizes. Só que deixei de acreditar e essa é a pior tortura dos meus dias actuais. Não foi o amor que me tiraram. Foi a crença, a confiança. E isso é dramático, porque quero voltar a amar, mas já não consigo acreditar. O copo está cheio, mas como previ, apenas de solidão. Não a desejo a ninguém.
bjs

14/03/10, 11:14  
Blogger Tita said...

Embora o seu desafabo não fosse para mim, respondi directamente e tenho esperança que algumas das minhas palavras sirvam para levantar um pouco esse veu cinzento que parece ensombrar um pouco a sua vida. Todos temos que conviver pacificamente com o nosso lado negro.

14/03/10, 23:59  
Blogger anete joaquim said...

Obrigada. Um beijo.
:)

18/03/10, 23:33  

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