amor sem medo

Compilação dos meus poemas, alguns publicados no Eco do Funchal e na III Antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea (Edições Orpheu). Não estão por ordem cronológica. Estavam divididos em vários livros, por temas que compreendiam amor, filosofia de vida e análise do mundo. Salvo os que fiz para serem musicados, sempre escrevi para mim. Muitos dos que os inspiraram, nem o souberam. Daí o seu intimismo. Hoje, acho que descrevem emoções universais. Direitos de autor reservados.

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Localização: Funchal, Madeira (Madeira Island), Portugal

múltiplas facetas

21 outubro 2010

Três anos de solidão

Faz, hoje, precisamente, três anos que estou só. Porque quero! O que não implica que a solidão não me invada. E só quero, porque deixei de acreditar. Sinto que morreu em mim a chama que me alimentou a vida. Desejo partilhá-la e, simultaneamente, já não creio que isso me traga a felicidade que sempre busquei. Em mentiras não embarco.
Agarro-me à esperança de que, algures no tempo, volte a ser quem era.
Até lá, carrego estas grilhetas que me tolhem a alma.
Só lamento ter tropeçado em alguém que me roubou a fé e isso, nunca perdoarei.

06 outubro 2010

Por que calaste?

Viveste toda a vida a dizer sim,
tentando agradar a toda a gente,
que à tua dor se mostrou indiferente,
só vendo o teu sorriso de delfim.

Viveste toda a vida a dizer sim,
na alma desejando um simples não,
guardado no fundo de um coração
magoado e só. Foste educado assim.

Viveste toda a vida a dizer sim,
dorido, ignorado, tão carente
de que alguém te estendesse a sua mão.

Em silêncio viveste até ao fim.
Na morte, só, num grito estridente,
lançaste teu alto e sentido NÃO!

30 maio 2009

Escuridão

Vem a morte com seu manto escuro
tapar o sol, que antes me aquecia
e eu sinto que a minha alma
vai ficando cada vez mais fria.
As flores, que antes me alegravam,
lembram, agora, uma campa esguia.
E os pássaros, que antes pipilavam,
cantam sons que são de mau agouro.
Sinto passos, mas só vejo escuro!

O meu sustento

Dei-me! Sei que me dei!
Dei-me toda.
De tal modo que,
sem ter a quem me dar,
nada resta do que sou.
Dei-me!
Ai! Que arrependida!
Quem dera ser mais desprendida.
Não ter amarras na vida.
Estar com os outros, sempre de partida.
Não estaria tão só como estou!
Dei-me!
É o me dar
que me sustenta a vida.

Ladrão

Um dia acreditei que o amor
me batera à porta e, desprendida,
abri-lhe toda a minha vida,
dando tudo o que tinha de melhor.
Entrou o senhor, coisa tão fingida,
mascarado de puro sedutor,
e eu deixei-me ir, embevecida,
por aquilo que julgava ser amor.
Chegou o momento da partida
e eu, tonta, inda chorei de dor,
sem saber que o mal pior
é que ele me roubara a vida.

Um som que seja!

É o silêncio!
Silêncio...
Apenas silêncio!
Mais do que isso!!!!!
É só silêncio!
Profundo!
Torturante!
Homicida!
Estou indo...
Sinto que me estou indo,
nos seus braços,
longos,
fortes e possantes.
Atirem-me uma voz!
Uma frase a que me agarre.
Um som,
um grunhido que seja!
Ai! Quem me tira deste silêncio?

Quem me dera acreditar!

Quatro paredes, tecto e um telhado.
Pedras no jardim,
pontilhado de flores.
Pássaros que me acordam para a vida,
que eu não quero,
de um coração
descrente de amores.

"A saudade é o amor que fica"

"A saudade é o amor que fica",
e, assim sendo, é algo que dói.
É lembrar tudo o que se foi.
Tempos de uma vida rica
de ternura e de sentimento
transformados em puro sofrimento.
A saudade é amor maldito
que a alma nos vai destruindo
e eu vivo morrendo cada dia
por um amor que julgava lindo.


Nota: Poema baseado na frase inicial, tirada de uma história linda que o joão me enviou.

26 junho 2008

ou sim, ou sopas...

Quando tudo o resto é mentira, por que há-de o amor ser a excepção?

25 junho 2008

necessidade fisiológica?

Há homens que alegam que precisam de fazer amor todos os dias, porque é uma necessidade fisiológica.
Mas que diabo!
Mulher não é sanita!

:(

14 junho 2008

O último a morrer...

Dizem que a esperança é a última a morrer, mas cá para mim é o amor. Conseguimos amar, mesmo depois de já não termos esperança nenhuma.
(25 de Junho de 2008)

nota 1: não percebo porquê, mas o blogue não me está a actualizar a data.
nota 2: Isto é só mais um pensamento. Não há recados implícitos.

O sexo no casamento é como uma peça de teatro.
Convenhamos: só se for muito boa é que uma peça fica em cena todos os dias, durante longos anos!

É só um "de"

Não há dúvidas! Há grandes pequenas diferenças entre homens e mulheres e é daí que vem a confusão. Por exemplo, quando uma mulher diz "Gosto muito de sexo", o homem fica todo feliz porque o que ouve é "gosto de muito sexo"! Está-lhe nos genes praticá-lo sempre que possível e vai disto, inicia a função.
Como ele gosta de muito sexo e ela gosta muito de sexo, as primeiras vezes até que correm bem. Lá fica o homem todo feliz por ter "uma mulher boa na cama" e, assim sendo, toca de lhe satisfazer a vontade a toda a hora e instante.
Só que a mulher, mais virada para a qualidade do que para a quantidade, a dada altura reclama e o homem fica baralhado.
"Mas disseste que gostas muito de sexo!"
"Pois disse - responde a mulher - só que não disse que gosto de muito sexo!"
O homem não entende porque é que um simples "de" fora de sítio faz tanta diferença!

Vazio

É só o vazio!
Já não há o suave murmúrio da tua voz.
(pergunto-me se alguma vez existiu!)
Já o doce roçar dos teus lábios não afaga os meus.
(pétalas perfumadas tombando em tarde de outono...)
O desejado abrigo dos teus braços, derrubado.
(quentes tardes de Verão...)
O teu corpo cobrindo o meu,
abandonado aos teus carinhos.
(saber-me tua...)
Teus lábios sussurrando: "És minha!"
(e eu sabendo que já não sou!)
Só o vazio preencheu a tua ausência!
Apenas um grande
e imensurável
vazio...

Revivendo




Para que, à noite, meu corpo não desperte


com saudades tremendas do teu corpo,


fecho os olhos,


cerro a boca


e, então,


no silêncio de mim mesma,


volto a ser tua, como outrora,


com uma pena imensa


de o não ser agora!...

TU!

Quando o desejo me assalta tem teu nome
e o contorno do teu corpo,
mapa que me falta
na busca dos enredos
de que teus dedos são a chave
do fogo que me consome
e que em teu corpo morre.
Quando o desejo me invade e me consome
meu pensamento voa; logo em ti se demora.
Com nitidez espantosa sinto, cheiro e vejo
o molde desejado de teu corpo,
ensejo de me fazer mulher...

Posse

Fazes de meu corpo um violino
tocando a teu prazer mil sinfonias,
no som mais puro e cristalino
de meu riso feito de alegrias.

Desces bem fundo ao claustro santo,
semeando de luz a escuridão;
colhes o grito de quebranto,
que então me sai do coração.

Fazendo de meu peito duas colinas,
alegremente plantadas de cravinas,
teu grande amor, por mim, sussurras.

Nos teus braços, de felicidade louca,
esmago contra a tua a minha boca
e tremo no lençol, ao qual me empurras.

28 maio 2008

A história


- Conta-me uma história, disse eu, jogando-me para cima da cama.

Ele olhou-me, com uma certa surpresa no rosto, assim como que a ver se eu estava a falar a sério.

- Que história?

- Uma qualquer! Inventa!

Aninhei-me nos cobertores, encostei-me na almofada e fiquei ali a olhá-lo fixamente, à espera, rindo-me interiormente com o evidente esforço de concentração daquela busca por um conto.

Ele olhou-me, passados alguns minutos, a ver se eu desistia da ideia.

Soergui o sobrolho e ripostei com ar risonho, quase atrevido: Então? Não sabes nenhuma história? Todos os dias te conto uma!

E era verdade! Fora essa evidência que me levara a fazer o pedido. Todas as noites, na minha habitual ronda para retirar a chave para dentro, deixava-me embalar pela noite e quando chegava ao quarto descrevia-lhe em pormenor o luar amarelado da lua cheia, o rasto que deixava no mar, ou aquele outro luar prateado, que me deixava jogos de sombra e luz no quintal e que tanto me fascinava. O brilho das estrelas, o negrume do céu em lua nova, sei lá, havia sempre tanto que contar.

E ele, já deitado, à minha espera, ficava ali caladinho, ouvindo as minhas descrições. Naquele dia, ao entrar no quarto, pensei que, de facto, vinha para a cama sempre com uma história.
Apeteceu-me ouvir uma, mas o meu pedido ficou sem resposta. Ao fim de algum tempo, desistiu. Puxou-me para si, aninhou-me nos seus braços como se eu fosse pequenina - acho que pensou que nesse dia me estava a sentir criança - e murmurou: Já te conto uma história!
Dei uma gargalhada, aninhei-me no seu peito e ali adormecemos felizes. Mesmo sem história.

Hoje, olhando para trás, lembro a seriedade com que ele me ouvia e questiono-me sobre o que estaria ele pensando daquelas minhas descrições, do meu entusiasmo, daquela súbita alegria que me fazia falar sem esperar resposta.

Quem sabe? Talvez hoje lhe apetecesse ouvir um daqueles contos de embalar.

As noites continuam a encantar-me, o luar enche-me a alma de sorrisos e sinto que continua a haver lá fora muito para ser contado. Algo mudou, contudo. Ir para a cama deixou de fazer sentido.

Não há ninguém para ouvir as minhas histórias!


05 novembro 2007

urbi et orbi

A vida é assim como que um copo de água que se vai enchendo gota-a-gota, dia-a-dia, sem que cada um deles pareça relevante. Apenas mais uma gota de um propósito que se desenha na mente: o do copo cheio. Nesse lento cumprimento da meta que nos traçamos, nem vamos dando relevância de maior às tristezas que alguns desses dias comportam. Agarramo-nos à existência feliz de outros dias, que nos vão alegrando a vida, na esperança de que outros idênticos nos caiam em sorte. Por vezes esquecemo-nos de nós, do que queremos mesmo e vamo-nos sustentando com a alegria que conseguimos espalhar nos outros, para nos sentirmos minimamente realizados nesse longo e distante projecto de ser feliz. Até que um dia notamos que o copo custa a encher, ou, pior que isso, que se foi enchendo de nadas. Nadas que podem ter sido tudo para os que nos rodeiam, mas que não foram o suficiente para nos encher a alma. É esse o momento que tenho vindo a atravessar de há tempos a esta parte e que me tem afastado do blogue. Precisava concisar esses pensamentos. Lê-los no silêncio de mim mesma. Tentar perceber o que, realmente, se passa comigo. Não sei se foram os 51 anos, este meio século que completei, que me fizeram olhar os olhos da minha alma, de frente, olho-no-olho e questionar-me sobre quem sou e o que tenho. Que felicidade me trouxe o empenho que tive em fazer os outros felizes. A resposta atingiu-me como uma bofetada: estou farta de fazer os outros felizes. Farta de me esquecer de mim. Farta de me consolar em ser feliz através da felicidade que vou dando. Compreendi que estive quase sempre e exclusivamente só. Apenas acompanhada. Pelos filhos, pelos maridos. Chegada a esta conclusão tinha de tirar as devidas ilacções. A idade pesa e tinha a perfeita noção de que a minha decisão iria colocar-me, pela primeira vez na vida, frente-a-frente comigo mesma. Melhor dizendo: só. Literalmente falando, pois os filhos, presença constante durante tantos e tantos anos, seguiram a sua vida e as suas presenças pouco ou nada se fazem agora sentir. Foi mais forte do que eu. Senti que aquele copo cheio me pesava nos ombros e que dali pouca ou nenhuma saciedade me viria. Agarrei o copo com firmeza, com alguma dor à mistura, confesso, e recusei-me a bebê-lo. Acabou-se a esperança da partilha. O sonho de uma felicidade convivida. Agora tenho um copo vazio para encher, mas, desta vez, quero que cada gota seja deitada para matar esta sede. É tempo de pensar em mim. Quem sabe? Talvez um dia, frente ao copo cheio, quiçá apenas de solidão, chegue à conclusão de que a felicidade que procuramos só existe naquela que conseguimos espalhar à nossa volta. Não sei! Só sei que, hoje, isso não me chega. À cidade e ao mundo proclamo: estou farta de me dar em troca de tão pouco! Este é o Meu Tempo! Só meu! Meu, mesmo que só!

10 agosto 2007

Amor perfeito


Não, amor!
Eu não vou manchar meu corpo
num lençol mal lavado
de um quarto alugado,
porque amor para ser perfeito
tem que ser feito a preceito
no silêncio do meu quarto,
onde o soar dos teus beijos
marque o compasso
da morte de meus desejos
nos teus braços...


Desejo

Colhes meu grito de mulher madura,
angustiado.
Cobiças meu mel derramado,
desperdiçado.
Tuas mãos em passeio,
docemente, em meu seio,
despertam nas coxas
o desejo refreado
de um amplexo alargado
contigo de permeio...

O erro maior

Foi pecado ou foi magia
o que fez esse momento?
Ou foi a mesma alegria
que juntou a terra ao mar
quando, no mesmo momento,
se deixava embalar
nos braços do firmamento?
Foi pecado ou foi magia,
ou simplesmente a harmonia
que havia na Natureza?
Não sei!
Mas o pecado maior
contra as leis do meu sistema
foi ter renegado o meu lema
"Só existo enquanto sinto"
e ter castrado o instinto
despertado pelo teu gesto.
Oh! Céus!
Por que não esqueci tudo o resto
e não consumei a união
daquele canto do mundo,
plantando ali no chão
a semente de um sentir
repentino,
inexplicável,
profundo?

Atlântico

Você sabia que transporta na cara
um olhar mais profundo
que o mar que separa
o meu e o seu mundo?
Quando me atrevo a ir lá beber
uma gota do sumo que você quer me dar
sinto o meu corpo vibrar de prazer.
Você me embriaga com esse seu olhar!

Frente a frente, não!
Põe-te de lado
p'ra não seres obrigado
a ver a emoção
que esse teu olhar
me vai provocar.
Porque, se perdura
esse teu olhar
cheio de ternura...
vou-me apaixonar!

Nota da autora

Não procures rostos nos meus versos. Procura o meu sentir, porque essa é a única constante, aqui.
Passa o tempo, passam as gentes mas, em consciência o digo, em variadas situações, no momento da entrega, o sentimento é o mesmo, no início, no meio, na separação.
A exaltação inicial é genuína; a entrega é total durante a relação; a dor é fulgurante na separação.
Só os rostos variam.
Mas isso não é o essencial.
Essencial foi sentir-me sempre eu mesma!
Procura, então, a poesia que esses momentos me despertaram; procura a emoção; procura o tempo imaginário da relação.
Porque o que pretendi demonstrar é que o Amor é sempre igual a si mesmo; que todas as relações têm o seu início ofuscante, o seu prolongamento de êxtase e o seu declínio doloroso. A diferença está em que alguns ainda não viveram todas essas fases.
Sorte a deles!
Não a minha!
Vive, pois, o Tempo do Amor!
Daquele que eu já vivi!

Dessincronização

Não, amigo!
Os meus passos
não ecoam na tua rua!
Funciono numa onda
(que não é a tua)
onde coxa/perna,
boca/dedo,
braço/mão
são apenas instrumento
de um prazer ao qual pertenço.
Para ti, são um fim sem ter começo!
Com boca componho um beijo
(esmagamento da alma, sem pejo,
noutra boca).
Com dedo, braço, mão
construo a ternura
da união que cativa.
Com coxa, perna, ventre, joelho
guardo em mim o espelho
de outra alma.
De todo o corpo humano faço um poema.
Para ti é, simplesmente,
a cloaca do teu esperma!
Tu preferes ser grosseiro.
Pois, se a pele do lobo te ajusta,
não me venhas chamar injusta
por não ver, em ti, um cordeiro!

Algures

Algures,
na estrada do medo,
perdeste a trilha dos meus passos;
ou foi na indecisão...
ou no cansaço...
Não sei!
Algures,
sinto que me perdeste!

Rua de Santa Maria

Rua de Santa Maria!
Teu nome, por ironia,
foi sempre mal afamado.
Quem te deu tão triste fado?
Os vadios e ciganos,
ou as pobres prostitutas?
Gera o preconceito enganos!
Quantas ruas impolutas
albergam, bem disfarçadas,
outras tantas prostitutas!...

Diferem as tuas pedras
das pedras de outras calçadas?
Não albergam tuas portas
almas de gentes honradas?!
Rua onde fui nada,
quem te fez excomungada?
Por teu nome gente mancha
a fama de gente honrada!
Quanta gente amargurada
por um simples preconceito!
Oh, rua, mas que maldade!
Teu nome só lembra escória!
Mas não és, desta cidade,
mais uma pedra da História?

30 julho 2007

Beijos secos por água




Beijinhos secos por água
da tua boca, que é fonte
onde mato minha mágoa
desde que o dia desponte.

Dá-me beijos, mata a sede
que na minha alma se instala.
É o sofrimento que o pede
e o coração não se cala.

Dá-me beijos, dá-me beijos!
Vem matar os meus desejos,
que de sede estou já louca,

porque os beijos que não deste
foste tu que os fizeste
ser água para a minha boca.

Anete M. Joaquim
30/7/2007


Inspirado no mote "beijinhos secos por água", frase da minha amiga rose, do Brasil, quando se referia aos "beijinhos" do meu jardim, flores assim chamadas no Brasil, mas que na Madeira conhecemos como "maravilhas" ou "alegrias do lar". São flores que se ressentem logo da falta de água, ficando murchas com facilidade, quando isso acontece, mas reanimando-se logo que se lhes deita água.

26 julho 2007

Detalhes de uma dança

Tu és o molhe impassível onde embatem as ondas da minha paixão.
Tu és o molhe impassível e não entendes que eu só pretendo amolecer-te e fazer com que me envolvas, novamente, nos teus braços.
Cada embate perpetua o contacto dos nossos corpos, numa dança em que cada centímetro do meu corpo era preenchido com o contacto do teu; cada movimento, uma réplica simultânea do teu movimento.
Eu só pretendo voltar a sentir-te assim unido a mim!
Nada mais sei do teu corpo. Só o cheiro, o suave premir da tua mão nas minhas costas, o leve roçar de teus dedos discretos em meu seio, o manusear seguro das minhas ancas pelas tuas mãos e um leve adejar de desejo no roçar dos dois corpos.
E aquele brilho malandro no teu olhar...
E um leve sentido de posse, quando me observavas dançando com outro; o teu rosto satisfeito ao me vires buscar em seguida, os teus braços abertos para mim e eu correndo ligeira para eles.
E aquele primeiro olhar demorado no meu olhar, ao fim da noite, quando senti que, de repente, me olhavas com ar de ver.
Por que será que me prendi a todos esses pequenos detalhes e te espero, como se de mil promessas se tratassem?...

Limpidez

Eu não sou pescadora de águas turvas!
Se queres lutar comigo, sê frontal!
Põe o jogo na mesa. Sê directa!
E, se queres conquistar o meu respeito,
não uses de intrigas, de artimanhas,
não sejas vingativa, nem soberba.
Tenta ser adulta e ser mais recta!
É a limpidez da mente o que mais prezo!
Perante jogo sujo digo: "Passo!"
Fazes-me intrigas? Nada faço!
Logo o meu silêncio te inocenta,
mas prefiro ser acusada, que nojenta.
Julgas-te vencedora, és vencida!
Levas por medalha o meu desprezo,
que é a limpidez da mente o que mais prezo
e eu cá posso andar de fronte erguida!

Nunca só

Viver mergulhada em multidões
não me faz sentir acarinhada.
Antes amigos verdadeiros
que encham meu peito de ternura
e me façam sentir, mesmo distantes,
que embora só, estou sempre acompanhada.

Dezembro 1990

Semente

Da semente da Amizade que plantei
nessa terra tão distante, onde morei,
nasceu uma frondosa planta.
Sua sombra, distante, se agiganta,
me consola, me aninha, me protege.
Seu pensamento me rege
a esperança na vida.
Que bom, ser assim querida!
Colher o que plantei!

1990
Aos amigos que deixei em Lisboa e cujo carinho me ajudou a superar a sensação de ser uma estranha na própria terra, quando para aqui voltei, em 1989.

Estranha

Na solidão dos fantasmas da cidade,
de ecos de vozes desejadas,
ou de sorrisos que me não são destinados,
vagueia minha angústia solitária
sem que mão solidária
me faça transpor a ponte,
ou me abra a fonte das palavras.
Não pertenço às pedras da calçada
e até sinto que a lufada de ar
é usurpada!

1990
Era assim que me sentia um ano depois de ter voltado à minha Terra.

Declamá-los?

Os meus poemas?
Não sei dizê-los!
Sinto-os tão diferentes
ao escrevê-los!
Saem-me do peito,
todas em tropel,
as palavras que moram,
agora, no papel.
Dou-lhes aqui um toque,
mais além, um trato
e logo fica pronto
esse meu retrato.
Isto é tudo feito
sob inspiração.
Não tem nada a ver
com premeditação.
Declamá-los?
Com a minha voz?
Seria erro atroz!
É melhor matá-los!

Saudade

Não sei bem qual o motivo,
nem sei, sequer, a razão,
se este fim-de-semana festivo,
se a minha solidão,
mas o que se passa, é bem certo,
sem que haja falsidade,
é que por não estarem perto,
senti montes de saudade.
Talvez que tudo se explique
porque vocês são, no fundo,
algumas das caras amigas
que povoam o meu mundo.
Um bom dia vos desejo
e aqui fica um grande beijo.

Feliz

Se eu fosse guardar rancor
a tudo o que me têm feito,
tinha o sangue envenenado
e um grande peso no peito!
Não tinha tempo para amar,
nem, nos outros, confiança.
Tinha o futuro empenhado
em busca só de vingança.
Apesar dessas intrigas
tenho minha alma tranquila.
Por isso vivo feliz,
digas, de mim, o que digas!

Ideal

Quem, neste mundo, dá o que lhe resta,
mais pobre do que estava não ficou!
Do pouco que sobrou fez uma festa.
Ficou mais rico quando partilhou.
É esta Fé que alenta a minha mente;
que conserva em mim, intacto, o ideal
de, um dia, ser mais rica, porque enfim,
partilho nesta vida, realmente,
tudo o que guardei dentro de mim.

Oferenda

Há, no ano, 364 dias que são meus.
Dias que em auto homenagem me dedico.
Do único que sobra, de que tanto se fala, desse abdico,
numa oferta aos homens que esquecem todo o ano
da mulher com quem partilham a vida.
Oferecem-lhe o 8 de Março por engano,
numa hipócrita homenagem,
em forma de desculpa,
para poderem camuflar a sua culpa.
Esse dia hipócrita ofereço!
Quero é o devido respeito
que nos outros dias mereço!

Psicossomático

Os sentimentos não são abstracção!
Nada de etéreo ou de abstracto!
São algo físico, permanente.
Algo que meu peito sente
e que no meu corpo retrato.
Creio no que é belo!
Quero meu corpo são!
Inveja, ódio e corrupção
não fazem, de meu corpo, seu pasto,
porque o negativo,
com toda a força,
afasto!

Vítima?

Não há que lamentar a minha vida!
As coisas não ocorrem por acaso.
Aos outros não imputo minhas culpas.
Não é deles que me vem maior agravo.
Rejo-me por minhas próprias leis;
só a elas condiciono o meu viver.
E se há alguém que tem culpa de eu sofrer
sou eu mesma!
Vítima de mim própria, quanto muito!
Não dos outros!
Alegremente!
Conscientemente!
Teimosamente fiel ao meu sentir!

Horror!!!

À frente da esplanada,
(segundo os da mesa do lado)
não passou ninguém perfeito.
Aquele, além, é pedante;
o outro, rico mas tonto;
aquela ali é casada
mas não dispensa um amante;
aquela de braço dado
com o rapaz de gravatinha
(que parece ser tão fina)
não é; vem da ralé!
Aquela caçou um homem
que parece ser pai dela;
e cheques sem cobertura
passa aquela senhora tão chique.
Eles ali ao despique
e eu a ficar transtornada.
De todo o "horror" que passou
à frente daquela esplanada,
o que mais me impressionou
foram estas mentes de NADA!

Coincidências

No Dia de Finados
enchem-se as campas de flores.
Só os mortos
(olvidados todo o ano)
não participam na festa...
No Dia da Criança
panfletos, manifestações
proclamam os seus direitos.
(e a criança nem protesta
dos seus dias de aflições!)
E, no Dia da Mulher...
(qualquer coincidência
é pura semelhança!...)

Entende!

Tu que, sem hesitar, ergues o dedo
num gesto leviano, acusador,
sem pensar sequer na dor
que nesse gesto injusto, assim, me infliges;
tu, que assim procedes, diz a verdade:
já viste em mim grunhir qualquer intriga?
Viste jogo sujo ou falsidade?
Tens de mim, acaso, alguma ofensa?
Não vás atrás dos outros! Pára! Pensa!
Antes de alguém julgares, analisa!
Descobre qual a razão que tem mais peso,
que eu aqui me calo, indefesa.
Não sei lutar contra a trapaça,
ou defender-me da peçonha,
por isso calo e assim consinto
(e se consinto, logo, sou culpada!
É tão fácil ser assim julgada!)
mas não sou pescadora de águas turvas,
nem uso as mesmas armas que desprezo!

Natal!??

Festeja-se o Natal
porque nasceu Jesus,
ou porque esse menino
morreu na cruz
para nos salvar?
Não foi Ele, da Paz, um pregador?
Não morreu para nos dar amor?
Não é, do Natal, esse o sentido?
A mesma filosofia?
Que fizemos do Natal,
se o medo da guerra nos domina?
Se povos ainda gemem de opressão?
Se morrem crianças de inanição?
NATAL: PAZ, ALEGRIA E AMOR!
Palavras sem sentido, sem valor
para tanta gente na terra!
Não morreu Ele pelo mundo inteiro,
para que o Natal fosse verdadeiro?
Teve Ele algum pejo em dar-lhe a vida?
Não pensou, assim, dar-nos salvação?
Terá Ele morrido por um desejo?
Terá a sua morte sido em vão?
Será o Natal uma utopia?
Será, de Jesus, uma ilusão?

Não basta ter razão, para falar

Se aqueles que te enfrentam estão irados,
ou cegos pela força da soberba;
se te insultam, humilham ou caluniam;
se tua honra enxovalham,
porque vis,
porque maldosos,
ou porque os agita a inveja,
cala a voz da razão que te assiste
e não caias na armadilha da peleja.
Tu, que voas mais alto, mais entendes!
Dar um passo para entender é gesto grande.
Mais sublime, mais humano é perdoar.
Do combate entre a injustiça e o silêncio,
entre a soberba e a humildade,
tece o tempo a imagem da verdade.
A razão, porque mais forte, subsiste!
Não deixa de existir porque a calaste!
Julgam-te os outros vencida,
mas marcha de cabeça erguida,
porque em nada te aviltaste!

25 julho 2007

Há mar em ti

Há mar em ti
quando as ondas se encapelam,
furiosas,
e batem palavras contra as pedras...
Há mar em ti
quando a ironia
é levadia traiçoeira...
E há mar em ti
de mansas ondas
que, ternas, morrem na areia...

Bosque lindo e denso

Tu és bosque lindo e denso
de delícias bem guardadas,
e o silêncio ecoa lindo
no teu peito.
Em teus olhos, quais ramadas,
um leve verde de esperança,
e em teu corpo a pujança
de homem feito.
Tu és bosque lindo e denso!
Intenso!
Tão fácil de entender
e de nele me perder!

Quimera

Não é um equívoco! Antes uma espécie de refúgio, o que me leva a pensar em ti, não sei bem porquê ou para quê.
Porque os caminhos estão traçados e sei que nunca se cruzarão.
E, contudo, este desassossego, esta vontade de, nem digo ter-te a meu lado, mas perto de mim. De poder olhar-te, cruzar os meus olhos nos teus, mergulhar por momentos nesse espaço que me negas. E sentir-me banida, como sempre que isso acontece.
Da tortura que me resta, sobressai, no entanto, algo que me alenta a repetir o gesto.
E os dias vão passando num conflito entre o desejo e a razão, entre o querer-te e o saber que nunca te terei. Entre a constatação de que o meu sentir não fomenta o teu; entre o saber quão vão é este querer sem destino.
Nem são sobras o que me alimenta; antes pedacinhos que vou recolhendo dia-a-dia, num abarcar de um todo que me está vedado.
Insensível, vais quebrando esta quimera; vais repisando o gesto de abandono; vais demarcando a distância.
Que só tu sentes. Que só tu desejas. Que só tu teimas em manter.
Entretanto, vou-me consumindo em saudades, sem que o coração me permita um pouco de descanso.

Homem ingrato

Que fizeste da ternura que te dei?
O amor que te dediquei, que fim lhe deste?
O consolo que em mim procuraste,
por que o não estimaste, meu grande tolo?
Vivias subestimando a companheira,
que tinhas à tua beira!
Quase que nem a vias!
Cansada de tanto dar, fugi,
e desse acto
ainda te queixas,
homem ingrato?

O que assim nos une

Diz o povo que se atraem os opostos.
Que só vinga o que é contradição:
o feio ama o belo; o bom ama o vilão.
Que desta dicotomia é que nascem gostos.
Diz o povo tudo isto e muito mais,
sem que isso implique qualquer verdade.
De mim te sinto outra metade.
Quanto mais igual a mim, te amo mais!
Não há, entre nós dois, contradição:
a sensibilidade que sinto, tu retratas;
o gosto pelo belo partilhamos;
a mentira que renego, tu maltratas;
a maldade e inveja renegamos.
É nesses sentimentos bons que partilhamos,
que encontro forças para te amar.
Eu sinto o mesmo em ti! Posso afirmar:
Não é na contradição que nos amamos!

Utopia

Amo-te,
e a isso se resume
não a vida,
mas este breve momento.
Guardo, em ti,
fiel o pensamento,
mesmo sabendo que de ti
mais nada tenho.
Amo-te
e sei que é fantasia,
coisa vã,
uma loucura,
uma utopia,
mas que queres
que te faça, meu amor?
Enquanto em mim durar
é alegria,
é força de viver,
é uma doçura,
que me deixa o dia bem melhor!

Por que tardas?

Por que tardas, meu amor?
Há tanto tempo que espero!
Veio o frio e o calor
dos teus braços é o que quero.

Por que tardas, meu amor?
Que te mantém entretido?
Manda um sorriso, uma flor!...
Não me abandones, querido!

Por que tardas, meu amor?
Que te mantém tão distante?
A ausência causa dor
no meu coração palpitante.

Por que tardas?
Por que tardas, meu amor?
Há tanto tempo que espero!

18 julho 2007

Tempo certo para tudo

Na vida tudo tem tempo;
um tempo certo, na vida!
Tempo de dar-se ao amado.
Tempo de ser-se querida.
Nada retorna ao passado.
Essa é a certeza da vida!

Já tive tempos de amor,
outros de dor bem sofrida.
Gozei-lhes todo o sabor
e não estou arrependida,
que eu vivi sempre o presente,
de forma bem consequente!

À frente tenho o futuro
e o que traz não o sei.
Felicidades auguro
e outras dores que terei,
que sempre tive este fado:
coração apaixonado.

Estou pronta para o que for,
venha lá o que vier.
Tenho por arma o amor
e este querer ser Mulher,
que viver não é pecado;
muito menos, ser amado!

18/07/2007

16 julho 2007

Fantasia

Cedo,
Fantasia,
ao teu encanto,
mas pára
com esse doce murmurar
sussurros
que não dizes.
Frases felizes
no silêncio
de um olhar...
Não vês?
São fantasia!
És sonho meu?
Realidade?
Ficaste para sempre
preso à Liberdade!
Não morras aí!
Vamos voar!

15.07.2004

(foto: Miguel Nóbrega)
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14 julho 2007

Carrasco

A urbe, por norma, tem pena
daquele que aparenta ser a vítima.
Sem pôr em causa a culpa legítima
logo o pretenso carrasco se condena.
Todos o tendem a julgar
por falso, vingativo e odioso.
Desprezam-no; deixam de lhe falar.
Dizem que é um ser impiedoso.
Por ele, depressa, mostram seu asco,
desprezando até suas razões.
Só que, em muitas ocasiões,
o que aparenta ser vítima
é que é carrasco.

Tristeza

Não deixes que a chuva caia no teu peito!
Usa o guarda-chuva da esperança
e faz com que nasça no teu leito
uma nova criança:
a alegria!
Amanhã será um novo dia
e o Sol ao nascer vai apagar
mágoas que hoje te torturam.
No mundo não há lugar
para tristezas que perduram!
Não penses mais nisso! Sorri!
Tem Fé!
O sol vai brilhar para ti!

A nossa força

A nossa força é sempre maior do que se pensa!
Se algum dia te bater à porta o desespero,
a ponto de pensares "Da vida já nada quero!",
constrói, a partir daí, uma nova crença:
se vivi, depois desta frase, um só segundo,
tenho mais força do que previ.
Com toda esta força que senti
e que me reteve nesta vida,
vou conseguir enfrentar o mundo.
Não me vou dar agora, por vencida!

O Povo mente

Diz-se de quem espera sem sentido,
que tolo é, ou vive de ilusão.
Que dirão de mim, pois sem ter marido
esposa sou, por minha própria opção?

Diz-se que só pode ser masoquista
quem tanto prazer sente no sofrer.
Diz-se que morre o amor, longe da vista.
Que dirão do meu, que não quer morrer?

Se o que diz o Povo fosse verdade
de que não se pudesse duvidar,
chegaria a pensar que é falsidade

aquilo que por ti meu peito sente.
Mas com este amor puro, são e forte,
digo enfrentando a Corte: "O povo mente!"

Edital

Procura-se:
homem que saiba o que quer,
livre, terno, responsável.
Que não veja na mulher
um passatempo favorável
à sua ilustre figura.
Inteligente, compreensivo.
Para as outras, evasivo;
para mim, todo ternura.
É favor só responder
se tiver figura adequada,
que eu prefiro viver só,
do que mal acompanhada!

Natal no Funchal

Exalam os jacarandás sua música
enquanto seus frutos brilham.
As ruas, rindo, cintilam
lembrando que é Natal.
Tudo em volta é alegria!
Tudo chama à comunhão!
E crianças pescam sonhos
com canas de fantasia
nas montras da sedução.
Há magia fabricada,
mas há verdadeira, também:
em nossas almas um leito
feito de paz e amor
para acolher o Menino, o Redentor!

Quem?

Na minha boca já não pousam beijos.
Já ninguém mata a sede aos meus desejos.
Já a ilusão não luz no pensamento.
Beijos, pássaros voando em migração.
Canto longínquo, o da ilusão.
Em chamas, meu corpo sedento.
Onde cresce, agora, a crença de outros dias?
Quem virá, brejeiro, com sua presença,
plantar em mim doces alegrias?

Creio nessa lei

Foi-se a Primavera e a pujança
das flores e trinados já morreu.
O céu enluarado fez-se breu.
A única constante é a mudança.

Tudo passa, nesta vida, tudo finda,
que o mistério desta vida é uma passagem.
O segredo é o amor ser leve aragem.
Sabendo que é assim a vida é linda.

Já as marcas do teu corpo se apagaram
nos contornos indeléveis da lembrança.
Foi assim que morreu, também, a esperança.
Só cinzas desse amor em mim ficaram.

Eu creio nessa lei! Eu creio ainda!
O tempo tudo passa, tudo cura.
Espero, nesta fé feita coragem,
que a seguir à tristeza haja ventura!

Metade

Pões os teus olhos sobre os meus e dizes,
com certo ar descrente, pondo a questão:
"Tens esses olhos sempre tão felizes!
Satisfaz-te assim tanto esta união?"

"Terei dado razões p'ra estares descrente?"
- diz min'alma, sentindo-se ferida.
Quem ama vê, no amado, bem presente,
a força que o move nesta vida!

Tremendo, docemente assim respondo:
"meu amor, se de ti algo te escondo,
bem longe, lá no fundo da minh'alma,

é desse amor que vês, outra metade!"
Nos meus lábios, repondo a felicidade,
desenhas um beijo, com toda a calma.

Um ódio terno

O que sinto por ti é ódio terno,
que me amarrando a ti mais me seduz;
algo que não controlo e me reduz;
tal qual pomba ferida no inverno.

Eu preciso de ti, como da luz
precisa a borboleta suicida.
Dizem meus lábios: "Já estou de partida."
Mas o rumo que levo, a ti conduz.

Neste terno ódio que por ti sinto
eu me revolto, fujo, grito, minto,
numa luta vã a que me obrigo.

E a revolta íntima é bem maior
por saberes deste ódio feito amor,
que quero mutilar e não consigo!

Não me deste o sonho

Deste-me a vida, mãe,
não me deste o sonho.
E sem o sonho, mãe, que é a vida?
Se o busco com afinco, destemida,
e no fogo dessa chama
queimo as asas,
é para ter a vida preenchida.
A busca, já em si, é fantasia
e da fantasia, mãe, eu faço o sonho.
Não o julgues vão e desmedido
que, neste sonho, mãe, eu prezo a vida
e me alegro de, um dia, ter nascido!

14 junho 2007

Deixo-vos uma flor do meu jardim


Nota:

Ao contrário do que acontece no www.jardimdepedra.blogspot.com, aqui, salvo raríssimas excepções, não responderei aos comentários. Confesso que não saberia o que dizer. Escrevi a poesia. Quem a ler, que a sinta como quiser. É essa a filosofia.

beijos

Possível

Contigo
é possível plantar flores
no meu jardim;
depois, colhê-las.
E construir futuros inquebráveis
nos muros da confiança.
Não morrerá a esperança
em palavras distorcidas pelo tempo,
porque plantaremos risos
em carícias inventadas
e marcharemos de mãos dadas
até que a morte nos enfrente!

Miragem

Tu és uma miragem.
A ilusão do sonho apetecido.
Nas tuas mãos, a ternura tem o sabor da urgência.
São doces, na tua boca, as palavras fingidas.
Tens a magia de fazer parecer que é,
o que não tem hipóteses de ser.
É doce, em ti, a mentira!
Não é a miragem um grande impulsionador?
A força que nos impele em frente?


A dor, essa, não reside na mentira,
mas na sua apreensão.

Partilhar?

Não se partilha aquele que se ama.
Eu, pelo menos, a isso me recuso.
Amar-te,
sentindo que entre nós há um intruso?
Não!
O gesto que me dás, ser repetido?
O beijo, de que gosto, copiado?
As mesmas palavras sussurradas ao ouvido?
Teu corpo, noutras mãos, acarinhado?
Não, amor!
Eu parto!
Confesso:
partilhar-te com outra é doloroso.
O mesmo abraço, o mesmo riso, o mesmo beijo!
Satisfazeres, noutra, o teu desejo!
Dares a outra o mesmo gozo?!...

Doce quimera

Quando o rodar das chaves é teu arauto
e teus passos me anunciam que chegaste
e, na pressa da boca que deixaste,
tropeças no beijo que murmuras,
é que eu sinto que a casa está completa
e, abrindo os braços que te esperam,
deixo que entres no meu sonho...

Nossas almas/nossa fé

Rasteja minha sombra solitária
sobre as pedras da calçada,
invejosa da contiguidade
das pedras.
Não há ecos de outros passos,
nem sombra que erga a minha,
nem voz que supere o vento
em sussurros na ramada.

Mas, distantes, nossas almas
proclamam a alvorada!...

Ilha pequenina

Nesta ilha de pigmeus
de falas mansas e subterrâneas,
onde maior que tudo
é a vida alheia
onde se exploram os temas...
Nesta ilha de pigmeus
onde a grandeza é uma ameaça
pelo perigo que tem
de não caber...

Quando os olhos atraiçoam

-Lisboa-

Na aridez das ruas e das gentes
flui a limpidez da palavra.
Que o dia se faz de luta
e a sobrevivência é nua e directa.
Não há camuflagem nos olhos,
nem grades nas bocas,
nem maldade mesclada de sorrisos,
nem pretensos paraísos
onde o verde esconda a verdade.
Mas, no pensamento, há espaço aberto
e, nas mentes, liberdade!

-Funchal-
Na rua passeiam vermes
camuflados no verde da paisagem,
que fazem da aragem
um murmúrio mesquinho e traiçoeiro.
E são fatais os corações de esgoto
onde a maldade faz seu ninho
só para consumo interno.
Que ao turista só se vende paraíso
e se oculta o verdadeiro inferno
das almas ainda cativas!...

Cidade perfeita

Era uma cidade perfeita,
de perfeita e desgarrada boca,
de dentes afilados e perfeitos,
que as vidas trocidava, impunemente.
Era uma cidade onde, em uníssono,
se ouvia a perfeita voz de todos,
no perfeito ofício de maldizer.

Era uma cidade sem espelhos!

Mocidade

No banco de um jardim
dois velhos fizeram História:
ficaram ali abraçados,
nem um pouco incomodados
com o que se passava em redor.
Deram beijos e abraços,
trocaram palavras, ternura;
e mostraram à cidade
que o amor não tem idade.
Nele a mocidade perdura!

Ternura louca

É louca, a ternura esfomeada, é louca!
Que sonha afagos no vento
e sorrisos na calçada
e palavras que escorracem o medo
e me façam desejada.
É louca!
Que pinta braços e dedos no desejo,
bocas esmagadas num beijo
e corpos em alvorada!...

Malditos esses dedos!

Anda a cidade pejada de armadilhas
de homens de dedos nus, enganadores,
onde meus sonhos se prendem, credores
da liberdade que vão proclamando.
Dedos nus que gritam liberdade
onde a maior servidão se oculta!...
E andam, sorrindo, sonhos semeando,
sem quererem assumir sua verdade!
Malditos esses dedos que me enredam
em promessas vãs,
de manhãs que acordam sussurrando!...

Pensa em mim

Pensa em mim
que, enquanto pensas,
pensa alguém em mim, nesta cidade!
Gratuito o gesto, mas a necessidade obriga!
Que eu sou barco à deriva em tempestade,
sem ter mão que me prenda, mão amiga,
e a dor não partilhada é desespero
e eu sinto em mim cravado esse aguilhão fero!

Quisera estrela ser

Eu sou, na terra, tal qual cometa
que atrás de si vá deixando luz,
que passe e ilumine,
deslumbre e até fascine,
mas que ninguém possua...
Quisera estrela insignificante
ser, no céu, sempre brilhante
e constante brilhar nos doces sonhos
de alguém que, olhando o céu,
me soubesse sua!

Nega

A vida, para mim, não tem sentido.
Já nada, nesta vida, me apetece.
O fio da esperança foi partido;
já nem a ilusão me acontece.

Demoro o pensamento no passado;
procuro, aí, o erro cometido.
Pergunto: "Foi por muito ter amado?"
Respondo: "Foi por muito ter querido!"

Amei com toda a força do meu ser
tentando encontrar, com essa entrega,
razão que explicasse o meu viver.

Foi esse anseio vão. Morreu traído.
Não quer mais renascer e nessa nega
foi-se todo o viver apetecido!

Ruas molhadas do meu corpo

Ruas molhadas do meu corpo
já por tantos percorridas,
já por tantos orvalhadas,
por outros desejadas,
não possuídas.
Nunca prostituídas!
Ruas molhadas do meu corpo
onde o amor passou
porque o sentir conjugou
a sua entrega com elas!...

Solidão

Percorro trilhos faciais desconhecidos,
herméticos ao meu querer.
Perco-me em sorrisos com endereço errado.
Sedenta de palavras busco-lhes, em vão, a fonte.
Perco a ponte do afecto, na cidade
e nem sob o meu tecto há risos de amizade.
Só a angústia solitária do meu peito!

O gesto

O gesto, por vezes, vai determinar
o grau, o tom, qual a intensidade
do sentir do amor, ódio ou amizade,
do desprezo, alegria ou, então, da ternura.
A função do gesto dura enquanto dura!
O seu alcance é que pode ser maior
que esse simples momento!
Deixa, pois, correr livre o sentimento
se for de amizade, ternura ou amor!
Podes dizer grandes e belas frases,
mas a verdade está naquilo que fazes!
O gesto não mente!
(se o fizeres espontaneamente!...)

Esperança

Se no mundo te sentires isolado,
sem teres perto de ti quem te console;
se sentires o peso da fadiga
sempre que a solidão te assole,
lembra que no mundo há sempre alguém
disposto a estender-te mão amiga
e a levar-te para os campos da ternura.
Põe nisso toda a esperança
que, dizem, na vida sempre dura.
Um dia, sem esperares,
alguém responderá ao chamamento.
Mais fácil te será viver sozinho
tendo esta fé no pensamento.

Fogem os ratos!...

Os ratos fogem logo se, em perigo,
está o barco onde vão; que é naufragado.
E, assim, à Sorte deixa o seu amigo
quem tem o coração acobardado.

Proclamam: "Se ele cala, é que consente!
E, se consente, logo, é que é culpado!"
Nem lhes convém lembrar que, no passado,
o amigo os defendeu de toda a gente!

Perante a injustiça passam cegos!
E até há quem ajude a pregar pregos
na cruz onde é pregado, injustamente!

Que isto de se enfrentar o povo irado
para defender um só, injustiçado,
não é para simples ratos! É para Gente!

Vingança

Na vingança se reflecte o mau carácter.
O fruto da falta de integridade.
O remeter aos outros a responsabilidade
do fracasso dos nossos actos.
Vinga-se quem se sente rejeitado;
o fraco, o invejoso, o humilhado;
quem não aceita que na vida
perder é uma das faces da medalha.
Vinga-se quem não assume o seu quinhão de culpa.
Vinga-se aquele que é canalha.
E não me venham com a desculpa
de que vingança é Justiça!
Justiça é temperança,
e cheio de falhas está quem utiliza a vingança!

Cristão

Tu! Tu és cristão de pacotilha!
Vais à igreja, devoto, bates no peito.
Oras a Deus, mas o despeito
sobe-te à boca em palavras cheias de ódio.
Vives fechado em ti mesmo.
Julgas-te melhor do que os outros.
Da cristã solidariedade
nem conheces a metade!
És duro, intolerante.
Acabas por ser maldoso,
mas bates no peito e garantes
que és homem de respeito;
que és bem religioso.
Se essa é a vida cristã,
preferia ser pagã!

Solitário

Quando a águia voa nas alturas
voa só, porque ninguém a acompanha.
Ela é a figura bela da montanha;
uma das suas imagens mais puras.
Nunca deixou ela de voar
por lhe ter faltado companhia.
Faz da solidão nossa alegria
sempre que a podemos observar.
Também entre o Ser Humano
há aquele que dos outros se destaca.
Logo a urbe invejosa o ataca,
fazendo desse ser um ser profano.
P'ra ser só é preciso ser valente;
manter inquebrável nossa crença;
não temer, por isso, a diferença
que nos vai isolar de toda a gente.
O ser solitário é coisa rara.
Nessa solidão, sua beleza.
Fez Deus, assim, a Natureza.
O Homem, desta forma, não encara.
O que é grande nossa mente não alcança!
Aqueles que se destacam são rivais.
Somos pequenos! Queremos todos iguais
e é por isso que o mundo não avança!

Toda a força de um amigo

A amizade anda pelos cantos
sem fazer alarde da sua presença.
Vive-se sossegado, porém na crença
de que tendo uma amizade verdadeira,
se tem, numa ilha nossa, encantada,
um seguro porto de abrigo.
E essa é toda a força de um amigo!

Amizade

Amizade: caminhos paralelos.
São vidas que decorrem lado-a-lado.
São gestos que constroem novos elos.
É sentir que se está interligado.

É sentir que se vive e que se sente
a alegria do amigo e a frustração.
Maior seja o problema que ele enfrente,
não temer estender-lhe a nossa mão.

Mas sempre que nos custe e que nos doa
ver a cruz que o esmaga e que o magoa,
sem ter a solução que ele procura,

faça-se um gesto amigo, que o acalente.
A amizade, por vezes, é impotente,
mas, na dor, sabe tanto uma ternura!

Amadurecendo

Suspendamos o gesto
pelos outros imaginado!
Fruto verde, não deve ser apanhado.
No compasso da espera
em que o desejo amadurece,
em que teu corpo, no meu, apetece,
vai florindo o gesto de ternura;
o gozo da companhia apetecida;
o beijo que nos acalma a sede.
Suspendamos o gesto
nos outros imaginado,
para o fazer florir em tempo apropriado!
Gozemos o resto, plenamente,
para que o gesto imaginado
seja, por nós, vivido intensamente!...

Um beijo

É um rio que flui da montanha do desejo.
Da montanha que explode em mim
quando o meu corpo floresce
sob o orvalho benéfico do teu olhar.
Olhar que me penetra,
de mansinho,
e faz nascer em mim cânticos e flores
e promessas de corpos abertos à ternura.
E o rio flui lentamente
e se engrandece.
E se faz mar.
E o mar desagua,
revolto,
na minha boca...

Rumo ao Norte!

Qual águia já cansada das alturas
poisaste, brevemente, em minha casa,
deixando sobre mim leves doçuras
no dorido adejar da tua asa.

Murmuraste, antecipando a partida,
uma mensagem captada lá no céu:
"Serás, p'ra todo o sempre, a minha querida;
nunca terás amor igual ao meu!"

Lançada essa verdade, mais disseste:
"Tu és para mim o Sul, o Amor, o Riso;
os filhos, o Norte de que preciso.

Ou tu, ou eles. Essa a minha sorte!"
Vi-te da dualidade triste presa,
gritei-te, com firmeza: "Rumo ao Norte!"

Algo

Não é paixão o que me prende a ti,
nem posso dizer que seja a tua beleza.
Nada que me tire o sono.
Nada donde brote alegria infinda
ou amarga tristeza.
E como, por vezes, as tuas palavras ferem
e a tua ternura demora,
nem posso dizer que te amo
pelo que me dás.
Só sei que o meu pensamento te procura;
que é em ti que se expande a minha ternura;
que é em ti que se espelha o meu desejo.
Não sei como se chama o que te dou
nem o que de ti recebo.
Só sei que sou fiel a algo a que me entrego.
Algo inexplicável em que meu peito crê.
Algo que te pertence, sem eu saber por quê!

16 abril 2007

São flores, senhor, são flores!...



O casamento é uma rosa!
Flor bela, esplendorosa.
que esconde bem seus espinhos.
Passa o tempo, cai a flor.
Só espinhos pequeninos
teimam em permanecer
na haste já ressequida.
Sempre teimei não os ver,
mas é essa a sina do amor
ao longo da nossa vida.

Não me ofereçam mais rosas,
que rosas são sempre enganos!
Hoje tenho muitos anos!
Quero tudo verdadeiro:
minha vida é um canteiro
pejado de malmequeres.

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17 março 2007

Legado

Não vos bastam as palavras?
Por que buscam a mulher?
Não revolvam minhas cinzas!
Palavras! Meros fragmentos
do que meu peito sentiu
e que alguém jamais viu
ou chegará a ver.
Poemas! Simples tratados
com princípio, meio e fim.
Momentos! Uma só vez!
Com o destino traçado
de morrerem nas emoções
que despertarem em vocês.
Não revolvam minhas cinzas!
Fiquem-se só pela palavra,
que é esse o único legado
que deixo do meu passado!

13 março 2007

Um pouco de sonho

Um pouco de sonho, amor,
que eu preciso!
Sem sonho a vida pesa,
a vida é triste!
És, para mim, esse delírio
que atenua a mágoa
que na vida existe.
E, mesmo distante, doce martírio
em que meu peito amante, sempre, persiste!

Renascimento

O que me deste foi uma graça extrema,
que veio dos Céus, sobre mim desceu!
Foi essa luz idílica, suprema,
aquela que, a Deus, roubou Prometeu.

O que fizeste foi espantar a morte
e desse gesto a cinza enrubresceu.
Mudou-se meu rumo. Alterou-se a Sorte
quando em teu amor, meu Ser renasceu.

Desde essa hora, canto simplesmente!
Que nesse belo canto o amor se expande.
Que nesse gorgeio o amor nunca finda!

Que nesse cantar viva eternamente!
Que nesse canto tempo infindo ande!
Que, enquanto cantar, não morri ainda!

Maldição atroz

Eu queria ver-me livre da Razão,
p'ra não adivinhar o fim do amor.
Deixar-me embalar no seu sabor.
Do mundo, através dele, ter a visão.

Eu queria, em mim, matar a previsão
das dores reservadas no futuro.
Fazer nascer em mim amor tão puro
que fosse meu sentir, fascinação.

Eu queria tudo isso e não consigo!
Duramente, chorando, é que me digo:
"Caíste, novamente, na ilusão!"

É maldição atroz que me persegue!
Vem o amor, meu peito ao alto ergue;
depois é derrubado pela Razão!

Espero

Sem esperança, espero!
Que a esperança é isso mesmo:
um acto consciente
de permanecer...
morrendo!

Deixa-me cantar-te...

Deixa-me cantar-te
poemas de invenção
em que canto o sabor
desconhecido de beijos!...
Deixa-me cantar-te
minha ilusão
onde flutuam desejos
de abraços imaginados...
Deixa-me cantar-te
versos de insatisfação
em que choro
passos que não foram dados!...
Deixa-me cantar-te
meu amor sublimado!

Serei fiel

Serei fiel
enquanto a tua voz se ouvir;
enquanto a esperança perdurar;
enquanto acreditar,
que se podem plantar asas no mar!...
Serei fiel
até meu coração
desistir de amar!...

Teimosamente

Pareço ter na vida triste fado,
(várias vezes, confesso, repetido)
de dar meu coração apaixonado,
sem ver o mesmo gesto reflectido.

Meu coração, embora fustigado,
não se mostra, de nada, arrependido.
Que a vida sem amor não tem sentido
e ele amarrou-se, sempre, a esse fado.

Dóis-me, coração! Peço-te: desiste!
Que isso que em vão procuras não existe;
que isso que te ensinaram é ilusão!

Não se dá por vencido o coração!
Busca, teimosamente esperançado,
a alma gémea; o ser p'ra sempre amado!...

Sei o que quero!

Pecámos ao falhar o casamento:
tu pecas por omissão; eu, por excesso.
Não sei p'ra qual dos dois é mais adverso
o destino fatal do isolamento.

Sabemos como dói a solidão;
como dói o desejo de carícias.
A liberdade tem suas delícias,
mas delícia maior há na união!

Eu fiz a minha escola no fracasso.
Com ele muito aprendi. Sei o que faço:
procuro um amor na vida, o derradeiro!

Eu quero um homem só! Fidelidade!
Marcharmos juntos rumo à eternidade!
Ter, para sempre, a meu lado um companheiro!

Sujeita ao Fado

Passei já tanto tempo, em vão, à espera
de ver realizada minha vida,
que julgo já tratar-se de quimera
amar alguém p'ra sempre, ser querida.

Tu chegas! Pura imagem de homem recto.
Solteiro até agora! - À minha espera?...
Conquistas, desde logo, meu afecto,
delícia que, eu julgava, já perdera.

Renasce o coração! Sinto-me lesta!
Sem hesitar, ao amor, toda me entrego,
que eu gosto deste fado e nunca o nego.

Sabendo que já estavas de partida,
fui dar-te o bem maior da minha vida,
pondo em perigo a esperança que me resta!...

Confesso!

Confesso! Amei!
Mais que uma vez
lancei meu coração
aberto
ao mundo.
Preso, apenas,
a um sentir profundo.
Confesso! Amei!
Mais que uma vez!
Confesso!
Nem é segredo,
que amei e amei
e amei sem medo;
alguma vez, até,
sem esperança!
Amar, assim, não é pecado!
Amei, de cada vez, tal qual criança!
Dor maior teria sentido
se tivesse já morrido
sem nunca, alguém,
ter assim amado!

Duplamente

Embarcas e a semente de um amor
sem ver a cor da luz, contigo morre!
Pedir-te para ficar? Tal nem me ocorre,
pois não te quero preso, sofredor.

Constrói o nosso mar suas amarras;
à Ilha assim me prende, me confina.
Fica o amor fechado na neblina
e quedo-me aqui presa em suas garras.

Deixei-me embalar pela ilusão
de ter, por breve tempo, liberdade.
Que o amor desconhece o que é vontade!...

E assim ficou maior minha prisão!
Presa à Ilha e ao que meu peito sente,
fiquei, agora, presa duplamente!...

Secreta ternura/tortura

Eu quero passar
a fronteira do teu olhar
onde o meu olhar esbarra
e mergulhar com garra
no lago que lá habita!
Palpita aí um sonho
que me é vedado!...
Sonho quebrar
as correntes
que te amordaçam os braços,
onde gemem abraços
que querem falar!...
E esses lábios,
onde embriões de beijos,
ainda por conceber,
esperam que os ajude a nascer...
Tormentos!...
Tortura!...
Ternura que não queres ver!

Breve passagem

Amo os teus olhos! Lago onde se espelha
a chama da ternura e do amor.
Amo esse fogo oculto! Essa centelha,
que faz adivinhar o teu ardor.

Amo o doce sorriso e a seriedade
que sabes imprimir a esse teu rosto.
E até amo a calma! Serenidade,
que oculta em ti um jugo oposto.

Amo a paixão oculta que adivinho!
Gestos, imaginados, de carinho!
(de que estou carente e apetecida...)

Sonho ter-te a meu lado!... Sonho vão!...
Nem chegaste a saber desta paixão!...
Só em silêncio é que ela teve vida!

Tu és a voz que eu quis ver

Oh! Homem!
Tu, que nessa singeleza
ocultas tanta emoção;
tu que vibras nas palavras
em que minha alma se afunda
e bebes o sentimento
que se evola dos meus versos.
Tu, Homem,
que assim me entendes
e que minha alma desnudas.
Tu que me cantas louvores
em versos feitos de flores,
tu és a voz que eu quis ver
nos lábios dos meus amores!

A verdade do amor é uma mentira

O amor não é mais do que a expressão
dos meus íntimos anseios e carências.
É a imagem desejada às apetências
que fazem palpitar meu coração.
O amor existe desde que eu creia!
Se der sonhos alados à fantasia
e soltá-la na rua, qual vadia
que ama a primeira rua onde vagueia,
logo encontrará um poiso certo.
Por isso é que se diz que o amor é cego!
Escolhe sem padrões e não contesta
o ser pelo qual fez sua opção.
Que esse ser, no fundo, lhe é indiferente;
dele não vive e não depende;
não lhe advém, daí, sobrevivência.
O amor existe em mim. É uma carência
que só nesta ilusão é saciada.
Fora de mim não existe! É engano, é NADA,
e em mim engano é! Que sublimação
é a forma de não me sentir frustrada,
é a fuga que encontro à solidão.
No fundo, o amor é uma ficção!

A verdade

A verdade é a ficção que me embala,
a lágrima que meu peito cala,
a voz que meu verso canta.
Enredo o presente em palavras
doces, sensuais, atrevidas.
Solto a gaivota do peito.
Corro ligeira no vento.
A verdade é pensamento
em palavras inventadas!
Que importa se é verdade
tudo o que meu verso descreve?
No fundo é tudo tão simples:
a verdade é a ficção,
ou a ficção é a verdade
a que o meu peito se atreve!

Invencível Caravela

Não me envergonho de mim!
Se trago velas rasgadas
e marcas de muitas mazelas
foi de enfrentar tempestades!
Sem medo rumo ao futuro
de velas bem desfraldadas.
E não há mar que me vença,
tempestade que me arrase,
onda que me amedronte,
porque Deus é minha bússola,
minha estrela e horizonte!

Partiste?

Victor, amigo meu, por que partiste
longe daqueles que te são queridos?
Tão só, num dos momentos mais temidos!
Sem um apoio, quando estavas triste?

Morreste sem sequer dizer adeus
e foste embora assim tão de repente,
que não estou dessa fuga ainda crente,
mesmo perante os restos que são teus.

Que te fique, no entanto, uma certeza
nesse lugar incerto onde te encontras:
mesmo na morte não me amedrontas

já que guardo de ti toda a beleza.
Ficou-me na memória o riso terno
quer era bem teu e guardarei eterno.

27.07.97
Em memória do Victor, cameraman da RTP/M, que morreu em serviço no Brasil.

08 março 2007

Dia da Mulher

Homem,
não esqueças o dia em que,
amargurado,
procuraste, nos meus braços,
teu consolo;
da ternura,
do sorriso desejado,
que te trouxe, de novo, a alegria.
Homem!
Esse é que foi o meu grande dia!

santa ingenuidade

Disseste nessa voz morna:
"Já somos bem crescidinhos
para enfrentar a verdade:
o passado não retorna;
o que passou já passou.
Gozemos esta amizade."
Mal essa frase soou
só vi nela ingenuidade.
Bastou ver-te uma só vez
para lembrar à saudade
os teus lábios sobre os meus!

09 janeiro 2007

Espaço Negro

Na minha casa tão bela
cada coisa tem seu canto,
cada canto seu pertence.
Há, somente, um espaço em branco:
espaço de alguém ausente.
Não rodam chaves na porta,
nem na rua se ouvem passos,
não há risos, nem abraços,
conversa doce ou risadas;
simples gestos de ternura
de alguém à minha procura.
Há montes de horas paradas
e um espaço negro em meu peito!
Ali, ao lado, em meu leito,
espaço vazio de vulto
e, algures, bem oculto,
espaço negro em meu peito...

Que possam meus versos...

Que possam meus versos afagar-te
e, à escuridão, dar-te fulgor;
que possam, de ilusões de amor
ou de elixir de vida embriagar-te...
Que possam ser teu mapa na cidade
onde buscas faúlha de saudade,
onde buscas, sedento, uma utopia...
Que possam tudo isso e muito mais!...
Mas não te iludas! São fatais!
Que fatal é, sempre, a fantasia!...

06 janeiro 2007

Presente

Tu és presente;
ponto e vírgula;
reticências.
Tu és um presente à espera;
futuro em perspectiva,
ponto de interrogação.
O essencial
é que não sejas,
tão cedo,
ponto final.

03 janeiro 2007

Notícias

Mãe,
eu, algum dia, vou ter a barriga grande
dos meninos do telejornal?
Filho, não penses mais nisso!
Enquanto puderes, come!...

Existirá o futuro?

Mamã, quando eu crescer
quero ser o que não sou hoje.
Acreditar que o futuro não foge;
que em cada dia há uma alvorada.
Mamã, quando eu crescer
quero, finalmente, ser criança,
aprender a subir os degraus da esperança,
crendo, firmemente, no amanhã.
Mamã,
achas que vais ser bombardeada?

Dúvida existencial

Mãe,
quando eras criança
o teu mundo era feito de coisas simples;
a esperança era palavra quase esquecida,
porque, simplesmente, existia.
Mãe, no teu mundo de criança
também havia frustrações, eu sei!
Choravas o brinquedo apetecido;
a maldade de algum amigo querido...
"Mãe, olha o trambolhão que dei!"
Hoje...
Mãe, onde pára o meu pai?
Filho, não sei!

Cansaço

Mãe,
quando chegavas da escola,
tua mãe abria a porta, sorridente,
dava-te um beijo e tu sabias
que o mundo estava completo.
Hoje, tenho a chave da porta
e, quando te oiço chegar,
corro a dar-te um abraço,
para te ouvir murmurar:
"Filho, deixa pousar o cansaço!"

Tudo mudou

Filhos,
os meus pais tinham uma ideia concreta
do que seria o meu futuro.
Cada dia era, para eles, o começo do amanhã.
Hoje a vida é tão incerta,
que a minha preocupação
é dar-vos um presente sem cuidados,
vivido intensamente,
e esperar que o amanhã
aconteça, simplesmente!

02 janeiro 2007

Copo vazio

Vá! Põe à boca o copo que te dou,
que a gota que encontrares lá no fundo
é a gota de esperança que sobrou
da fé que me restava neste mundo!

Lamento entristecer a tua festa!
Tentei pôr neste copo que comprei
a fé que me restava e comprovei
que da esperança que havia, nada resta.

E agora que bebi toda a bebida
na solidão mil vezes preferida
à ilusão de estar acompanhada,

dou-te o copo que eu sempre imaginei
ver cheio de ternura sã e linda,
mas que ninguém no mundo encheu ainda!

Reforma

Chegou aquela hora merecida
em que o corpo, já cansado do trabalho,
recomeça, nesta vida, outra vida.
Chegou agora o tempo do descanso!
Desliza o relógio em tempo manso,
liberto da função despertadora.
Goza o descanso merecido
pelas horas de vida que perdeste!
Há muita coisa bela que não viste!
Tanta coisa que ainda não fizeste!
E se ainda no teu corpo sentes vida
(vontade não te falta p'ra viver)
programa, desde já, a tua lida
nos gostosos caminhos do prazer!...

Vaga ideia

Julgavas que te conhecias?
Que sabias das tuas razões mais profundas?
Mas que santa ingenuidade!
Mas ainda não sabias
que nesta santa cidade
quem te conhece melhor
são as senhoras da esplanada,
o homem que vende jornais,
o empregado que te serve a bica,
o colega do trabalho,
a menina dos correios,
o teu chefe,
o empregado do Banco
e o teu vizinho do lado?
Sabem com quem andas,
o que fazes, de onde vens;
e as coisas mais imundas,
que nem ousaste pensar,
te acusam de tentar esconder.
Têm sobre ti
opinião abalizada!
Só no fim dessa longa lista
é que vens tu,
aquele de quem tens uma vaga ideia!...

Madeira

Eu já me tinha esquecido
dos prazeres desta terra;
como é suave o ruído
quando o silêncio é que berra.

Guardo no peito o cantar
do melro preto, à noitinha;
e o azul quente do mar
sulcado pela toninha.

Oiço a cagarra cantar,
esqueço que é mau agoiro;
deleito-me com o voar
do milhafre, asas de ouro.

A gaivota, o maçarico,
são, desta terra, a bandeira;
vejo-os e logo fico
a sonhar com a Madeira.

Ó minha terra sagrada!
É tão doce o teu encanto,
que eu não consigo ocultar
que a cada passo me espanto!

Segredos de alcova

Fazem, na alcova, os homens, confissões,
sem pensar que a mulher é ser fadado
à má-língua, à maldade e às traições;
usam, p'ra qualquer fim, o confessado.

Contam, na alcova, os homens, seus segredos,
julgando que o segredo é bem guardado.
Tecem, disso, as mulheres, vis enredos
sem terem a noção do seu pecado.

Pode a mulher aparentar ser anjo,
mas não sejas, oh! homem, descuidado!
Não estejas, homem, dela, tão seguro!

Lúcifer, lá nos Céus, era um arcanjo,
mas foi, por Deus, dos Céus, excomungado
por julgar ser, que Deus, ainda mais puro!

Natal

Quando o Natal se avizinha
adivinhando abandono,
e a almofada ao pé da minha,
sozinha, vela meu sono...
Quanto o Natal se avizinha
adivinhando abandono...

Numa casa em frente à minha
o Natal já começou:
bolas na árvore, a estrelinha
e até a gambiarra brilhou!
Quando o Natal se avizinha
tão triste, tal como eu estou!...

Na minha casa vazia
já a esperança morreu.
Não há luzes, alegria,
árvore de Natal, companhia,
neste Natal que se adivinha
ainda mais triste que eu!

Não vou perder meu sono
só porque o Natal se adivinha
carregado de abandono!
Para quê tanta agonia
se o Natal é só um dia?!

Ruas molhadas...

Tua mão toca nas minhas,
enternecidas,
estremecidas pelo galope
desse toque
nas veias.

Ruas molhadas
desaguam
entre minhas coxas fechadas...

Desejo

Colhes meu grito de mulher madura,
angustiado.
Cobiças meu mel derramado,
desperdiçado.
Tua mão em passeio,
docemente em meu seio,
desperta nas coxas,
o desejo refreado,
dum amplexo alargado
contigo de permeio...

SOU!

Eu sou o riso, sou a esperança,
ave em alma de criança,
pomba que voa em liberdade;
sou a força movida pela paixão,
a espuma branca do cachão
do rio que percorre toda a cidade.

Sou lei escrita em céu aberto,
voo de pássaro liberto
à primeira claridade.

Sendo só isto a verdade
de todo este meu viver,
p'ra tudo isto poder ser,
gritei bem alto, contra o vento,
o meu pranto, o meu lamento,
o meu sincero sofrer
contra a dor, contra a maldade,
a má-língua, a falsidade
dos que me quiseram na lama.

E à noite, na minha cama,
antes de adormecer,
grito às paredes do quarto,
num som dorido, cansado, farto:

"É assim que quero ser!"

17 dezembro 2006

Tão ruim

Disseste-me adeus.
Não foi o bastante.
Gozaste de mim.
Foste bem pedante.
Cortaste-me as vazas.
Mandaste um cartão
A dizer que casas
já neste Verão.


Refrão:

Mas o que queres tu provar,
Com essa tua humilhação?
Será que queres demonstrar
que és melhor do que as outras são?
Já nem consegues perceber
que não passas de uma ilusão.
Há no mundo muita mulher
de muito melhor coração.


Nem quero saber
p’ra onde é que vais.
Podes-me escrever.
Não te ligo mais.
Um dia, talvez,
percebas, enfim,
que és tão soez,
que és tão ruim.

ÉS FALSA, LUA CHEIA



Na lua nova ou minguante
e até mesmo no crescente,
não preciso de calmante,
durmo a noite, num repente.

A lua cheia, a sorrir,
dá-me cabo do juízo,
que nem consigo dormir
o tempo que é preciso.

Refrão (bis):

Lua cheia,
és falsa, lua cheia.
És bonita.
só fazes coisa feia!

A lua cheia, malvada,
com seu sorriso bonito,
traz mau tempo, trovoada.
Já nela não acredito.

Já dizia a minha mãe:
“Não confies na beleza.
A lei aplica, também,
às coisas da Natureza!”.

Refrão (bis):

Lua cheia,
és falsa, lua cheia.
És bonita.
Só fazes coisa feia!

QUERO ESPERANÇA

No tempo da minha mãe
era casar, ter um filho.
Havia casa também
e emprego sem sarilho.

Hoje mato-me a estudar
p’ra ter um curso completo
e depois vou trabalhar
a preço de analfabeto.

Refrão (bis)
Quero vida.
Quero esperança.
Quero casa,
emprego,
mulher
e uma criança.


Hoje trabalho em pedreiro.
Um dia fui condutor,
mas também fui calceteiro,
bate-chapas e pintor.

Do ordenado assinado
quase nunca vi a luz.
Tenho o futuro estragado
por esta pesada cruz.

Refrão bis
Quero vida.
Quero esperança.
Quero casa,
emprego,
mulher
e uma criança.

E vai um shot

Disseste-me adeus.
Nem te importou
sofrimentos meus,
a dor que ficou.
Mandaste-me um beijo
em carta fechada.
Foi-se o teu desejo.
Não te digo nada.
Hoje vou curtir
só p’ra te esquecer.
Bebo até cair.
Bebo até morrer.

Refrão:
E vai um shot.
E lá vão dois.
E outro mais.
E um red bull
para voar
como os pardais.
E, entretanto,
se essa dose não chegar,
bebo outro tanto,
e mais outro,
sem parar.


Dói-me o coração
de tanto beber
nesta solidão,
só p’ra te esquecer.
O efeito passou.
Já não sinto nada.
Só a dor ficou
ainda mais marcada.
Para complicar
foste aparecer
com outro no bar.
Vou ter de beber!

Refrão:
E vai um shot…

Mãe

Tu és a carne que devorei para me criar.
Tu és o ventre que devastei para me abrigar.
Tu és o sangue que suguei para sobreviver.
Tu és a Vida, a Origem, a Dor, o Mundo.
Tu és Tudo, Mãe!

Velho da rua

Velho da rua
tens nos olhos a carqueja
do teu passado
recheado de emoções.
Escondes os olhos
para que quem passa não veja
do teu passado
o ruir das ilusões.

Velho da rua
quando dormes ao relento,
enregelado
pela chuva, pelo vento,
teus olhos choram
essa vida de cadilhos,
enquanto sentes
o desprezo dos teus filhos.

Velho da rua
a tua fome resolves
quando revolves
esse lixo onde procuras
com o coração
apertado de amarguras,
um abraço antigo
recheado de ternuras.

Velho da rua
quando a morte te encontrar
desamparado
nesse banco de jardim,
da vida antiga
nada mais há-de restar
que a solidão
com que enfrentas o teu fim.

Cantoneiro

Abres buracos,
fechas buracos,
metes um cano!...
Vives uma vida
de desengano
a labutar,
para chegares a casa
a desejar ter um cano
onde te possas lavar
e não o tens!

Cidade + intimidade = amor

Não, Amor!
O amor não se faz só lá na cama!
(quando se ama!)
É todo este cortejo
de carícias, de desejo,
de roçar corpo com corpo
pela cidade.
Leves promessas
do que se fará na intimidade!...

Inveja

Colar-me a ti...
Roçar-me em ti...
Cobrir completamente teu corpo lindo!
Amá-lo, tua pele vestindo...
Beijá-lo no leve adejar de qualquer brisa...

Ah! Quem me dera ser camisa!

Cansei

Deixei que a tua voz fosse um farol
que me guiou todos os passos,
esquecendo tristes saudades
na doce prisão dos teus braços.
Calei bem fundo no peito
lágrimas que quis derramar
quando à noite no meu peito
cansara de te esperar.
Tanto calei, chorei, tanto deixei
tentando em vão não te perder
que hoje só tenho para te dizer:
olha, amor, eu já cansei!

16 dezembro 2006

Quem dera que fosse...

Amanhã, de manhã,
quase correndo,
vou procurar
cruzar contigo
na avenida,
para, num simples olhar de fugida,
saciar esta fome de te ver.
Mesmo sabendo
que este desejo
é inútil, sem futuro,
eu te procuro
pelo simples prazer de desejar
um olhar sem compromisso.
Enquanto isso,
meu coração
vai-se debatendo,
revoltado,
na teia desse teu olhar tão doce.
Quem dera que fosse
já amanhã!...

Desejar o impossível

Desejar o impossível
é negócio perigoso:
perde-se o que é possível,
mais um tempo precioso.

Quando se vive a ilusão
como se o real fosse,
não se sente a emoção
que a vida real nos trouxe.

Passa-se ao lado da vida
perdendo a sua beleza;
que ela tem de ser vivida
no que é bom, no que é dureza.

Não é forçoso temer
a vida que a gente tem.
É preciso é viver
tudo o que dela nos vem.

E se a ilusão te tentar
lembra este meu conselho:
se perdes tempo a sonhar,
acordas e já és velho.

No teu olhar renasce o meu passado

No teu olhar, o meu olhar pousado,
(gesto a que, cada dia, mais me apego)
encontra velhos trilhos do passado,
remove, pouco a pouco, o meu sossego.

Sonhos, que então sonhou, sobressaltados,
escondem-se no olhar que busca o teu.
Não mais que a sonhos sei-os condenados!
Meu olhar, nessa certeza, o amor escondeu.

Descrente o teu olhar diz que o meu mente
quando te nega e foge do que sente;
quando renega tudo o que eu desejo.

Por isso é que me esperas, paciente.
Que vens ao meu encontro, no presente.
Só que disfarço e finjo que não vejo!

Mais que tudo

Amar é mesmo assim: este querer
que é dor, é nostalgia, é riso e pranto.
É dar sem receber, querendo tanto.
É ser assim só tua, sem saber.

Amar é muito mais! É dar-se inteira!
Sentir o corpo a arder num tal desejo
de abraços, de carícias, de um só beijo;
passar o tempo todo à tua beira.

Amar é mesmo assim e mais que isto!
Não sei como explicar este querer
a quem nunca sentiu um tal sofrer!...

Daí querer fugir, mas não resisto.
Meu coração, teimoso, no seu canto,
passa o dia a gritar: "Quero-te tanto!"

Amar-te mais, amor?

Amar-te mais, amor? Pois se proclamo
este amor em sonhos, adormecida!
Se em torno dele gira a minha vida!
Amar-te mais, amor, do que te amo?!

Amar-te mais, amor? Pois se a vontade
entrego a este amor toda rendida!
Morreu, acaso, o amor na despedida?
Não renasce mais forte da saudade?

De longe amar-te mais? Pedes-me a vida!
Acaso te a recuso? Acaso a nego?
Acaso há nessa entrega dor sofrida?

Amei-te quanto pude aqui na vida!
Amar-te mais, amor? Só se na morte
Deus der a este amor, também, guarida!...

Quando os corpos se embriagam

Há silêncio atrás das portas
que o amor é de segredos;
e os sonhos gemem carícias
no esvoaçar dos dedos.
Há silêncio, que se calam
bocas fechadas num beijo
e os corpos se tornam cúmplices
na embriaguez do desejo.
Há silêncio atrás das portas,
que os amantes, escondidos,
saboreiam doce vinho
que lhes embriaga os sentidos.

Contradição

Há sonhos que se adivinham, mas se calam.
Paisagens que atormentam - desejadas -
de onde brotam ternuras que resvalam;
meias-palavras não pronunciadas.

Há gestos que queremos e ocultamos
p'las linhas que traçamos nesta vida.
Pessoas que queremos e afastamos.
Ternura que enterramos, não vivida.

A vida é mesmo assim. Contradição.
É um querer sabendo não se ter.
É um viver esperando outro viver.

É duro, mas que resta? Há que aceitar
a dor em que se vive eternamente
de não viver aquilo que se sente.

Prece

Não acordes o passado,
que a emoção se levanta!
Que o meu corpo não se espanta
deste futuro atrasado.
Não remexas o passado!
Não renasças a esperança!
Não tragas contigo a utopia
de um futuro desejado.
Não acordes o passado!
Já o sinto tão presente
que o meu peito sofre e sente
o caminho palmilhado
novamente a descoberto.
Sentir-te, de mim, tão perto
enganosamente afastado...
Não acordes o passado!
Não acordes o passado,
que eu sonho que é presente!...

Veio o passado

Veio o passado e colheu-me
com toda a força que tinha.
Não disse ao que é que vinha!
Veio, somente, e colheu-me!
Veio o passado, mansinho,
tão doce que nem se ouvia.
Nos seus braços me prendia
e me aninhava em seu ninho.
Veio o passado e eu me rendo
ao sabor que, outrora, tinha.
Que futuro se adivinha
no passado renascendo?
Veio o passado e colheu-me
sem sequer dizer que vinha!...

Repetindo

Deixa dizer-te uma vez mais
do amor que, por ti, guardo em meu peito;
da ternura que sinto a teu respeito
e que ao dar-se a ti, me satisfaz.
Deixa demonstrar-te esta ternura
que é vida cantando em teu louvor.
Nela se espelha o meu amor;
é dele a sua parcela mais pura.
Não duvides! Entrega sem receio
esse sentir inóspito, que por mim sentes.
E se, por acaso, meu amor pressentes,
crê nele com toda a força com que eu creio!

Alternativa

Vi o sorriso apagar-se
naquela face querida
e mão terna, apetecida,
dizer adeus e afastar-se.
Fiquei à espera, bem crente
que ainda se arrependesse
e que solidão carente
seu amor engrandecesse.
Contei as horas do dia
sem que nada se alterasse,
à espera que essa agonia
com o tempo me passasse.
Bradei bem alto aos Céus,
jurei à Virgem Maria
que doces carinhos meus
ser algum, jamais, veria.
Respondeu-me das alturas
voz doce, celestial:
"Filha, não leves a mal.
Deves já estar prevenida.
Deus só te deu esta sorte:
para além dessas quimeras
que te sustentam a vida
existe somente a Morte!"

Medida

É tão triste notar à partida
que o teu corpo é a minha medida.
Que a todo e qualquer respeito
nenhum outro surtirá o mesmo efeito.
Ah! Noites passadas
de costas curvadas
unindo-me a ti;
beijos trocados,
sedentos, molhados,
como nunca senti.
Gritos dobrados
de corpos cansados
de tanto suor.
O corpo em espasmos
em merecidos orgasmos
de amor.
Porque tudo persiste
é ainda mais triste
sentir à partida
que és mesmo a minha medida.
Ai! Cala-me,
cativa-me,
embala-me.
Não me faças fugir.
Se ainda te beijo,
abraço, desejo,
não me deixes partir.
Saber que, no mundo,
encontrei a minha justa medida
e ver que és, no fundo,
a causa da minha partida...

Chegou a hora

Esqueci o tempo perdido
deste amor que me devora
e é uma vida sem sentido
aquela que vivo agora.

Hora a hora, dia a dia,
sustentei essa ilusão.
Quanto mais tempo perdia,
mais negava a solidão.

Chegou a hora
de pôr um ponto final
no amor que outrora
foi um bem sem ter igual.
Chegou, enfim,
aquele dia marcado
de seres p'ra mim
um adeus, um triste fado.

Digo-te adeus, mas porém,
minha alma não te esquece
e as mágoas que este amor tem
meu amor não enfraquece.

Vais-te embora, mas somente
o adeus na boca cabe,
este amor que o peito sente
só o meu coração sabe.

Chegou a hora
de pôr um ponto final...

Bastou um instante

Um dia, lá no céu,
quando me fez,
cruzou Deus,
com a tua,
a minha vida.
Juntou-nos um instante
e, em seguida,
fez-nos seguir em frente,
separados.
Não chores!
Abençoados
fomos nós, pelo Criador:
deu-nos momentos de amor.
A outros nada deu.
Não são amados!

Permaneces em mim

Não te digo adeus.
Era mentir-te!
Era dizer-te: não te quero mais!
Era partir sem olhar para trás.
Era negar-te o que meu peito sente!
Meu corpo está ausente?
Sentes-lhe a falta?
Não te ficou a marca de meus beijos?
Não me vês em sonhos? Em desejos?
Em mim estás sempre vivo!
Moras nos meus!...

Epitáfio

Levaste contigo a alegria,
a vida, a inspiração.
Plantaste em mim a solidão.
Minha alma cansada morreu,
a boca secou,
o corpo desfaleceu;
a esperança magoada,
de tão ultrajada,
desapareceu.
Eternas juras
de alegrias futuras
apodrecem na boca
e já quase louca
vi, em desejos,
esses malditos fantasmas de beijos.
À minha volta
nasceu a revolta.
Tudo o resto morreu.
Ficou só o contorno
do teu corpo no meu!
O céu desabou
e nesses escombros
de tempos passados,
com uma certa ironia,
um epitáfio dizia:
"Aqui jaz quem acreditou."

Marino

Tive um sonho!
Meu corpo era barco à vela
vogando nas ondas da tua ternura.
Tuas mãos, brisa ligeira que me eriçava a pele
e a tua boca, remoínho que me atraía.
Teu corpo, âncora que, enfim, me detinha.
Acordei
com o grito de gaivota
que me rebentou nas entranhas...

Corrente

O sentimento é uma força que ultrapassa
as barreiras criadas pelas gentes.
Põe um sorriso amigo e a sua graça
está em demonstrar tudo o que sentes.
Criam-se novos elos, quais correntes
que prendessem navio de alto porte.
Vem o mar alto, bate, machuca, fustiga,
mas o navio resiste à força inimiga,
porque o sentimento é corrente muito forte!

Culpa-se o mar

Nem só de mar se faz a distância.
Muitas vezes ela nasce da importância
que não se dá a quem vive perto de nós.
Do medo de dar um passo e descobrir
que há alguém que vale a pena conhecer.
Culpa-se o mar
por se ter medo de enfrentar essa verdade.
Culpa-se o mar,
mas, na realidade,
que culpa tem ele da cobardia
de dar um passo e descobrir que, afinal, havia
um doce abraço à nossa espera,
um carinho, um sonho, uma quimera
que poderia ter acalentado nossa vida?
Passamos ao lado da sorte
sem dela nos darmos conta.
Vive-se a vida, desdenhando a morte,
quando, na realidade, morremos
todas as vezes que nos fechamos em nós,
sem dar a outrem a oportunidade
de fazer ouvir a sua voz.
E, se o amor surge noutro canto do mundo,
chora-se o impossível,
diz-se que o mar é intransponível;
deitam-se as culpas para o mar profundo!

Uma flor para ti

Pensando em ti, com alegria,
uma a uma juntei
as pétalas do dia,
que numa flor transformei
com um sorriso de gosto.
Colhi com delicadeza,
neste dia de trabalho,
a infindável beleza
de uma gota de orvalho
do meu rosto
e essa linda flor reguei.
Juntei,da Amizade, o aroma;
meti-a, com muita ternura,
em hermética redoma
e aqui tens, transformada
numa flor bem delicada,
a minha forma de pensar
em ti!...